SEM MEDO DA MORTE
09/04/2012
José Renato Nalini,
O cristão deveria ser a criatura mais feliz sobre a face da
Terra. Se todos os demais humanos não conseguiram contornar o medo da morte, o
crente é um afortunado. A base de sua fé está na convicção de que esta vida não
é senão passagem. Efêmera para todos, pese embora a sensação de que alguns
chegam à ancianidade. Por mais que se esforce, o ser humano é incapaz de
ultrapassar os 110 anos.
Quem chega aos 90 já fica feliz, pois muitos contemporâneos já
partiram. Com isso se confortam: ficar velho é melhor do que morrer. Desde a
mais remota antiguidade, logo após a mitologia ter cedido espaço à razão,
preocuparam-se os pensadores com obter explicação satisfatória para esse
fenômeno da finitude. Por que se nasce? Qual a missão de cada um neste
peregrinar? Por que se precisa morrer? A busca da perenidade não se satisfaz
com a resposta laica.
Vive-se na descendência, o que priva aqueles que não geraram
filhos de sobreviver. Perpetua-se nas obras realizadas durante este percurso.
Esta resposta não é das mais conclusivas. De que vale eternizar-se naquilo que
se fez, se a individualidade perece? Já o cristão tem uma solução para o
mistério. A humanidade resultou de um ato de amor do Senhor da Razão e de todas
as coisas. Pretensioso, o homem quis logo comparar-se a Deus.
Perdeu a situação original de verdadeira bem-aventurança e se
viu obrigado a trabalhar para viver, “obter o pão com o suor do rosto” e, para
culminar, sentiu o que é a mortalidade. Ofensa a um Deus, só um sacrifício
divino para redimir o ofensor. Daí a linda história do Cristo, presente sempre,
a iluminar os caminhos desta espécie cada vez mais desalentada, tanta a
insensatez que campeia pelo sofrido planeta. O ápice disso tudo é a
ressurreição.
Alguém que venceu a morte – já o fizera a ressuscitar seu amigo
Lázaro – não é uma pessoa qualquer. Se Ele ressuscitou, eu também posso
ressurgir dos mortos. E se não tivesse ressuscitado, “vã seria a minha fé”,
como proclamou Paulo. Criatura miserável, o ser humano deixa de levar a sério a
mensagem, se desespera, se desalenta, blasfema, esquece-se de sua filiação
divina. Pensa em ovos de chocolate em lugar de se entregar ao Cristo
Ressuscitado. Na festa mais linda até do que o Natal. Pois sem a ressurreição,
qual a razão para se continuar a viver?
José Renato Nalini
é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio
2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.
Blog
do Renato Nalini