MUDANÇAS DE PARADIGMAS PESSOAIS:
VENDO AS FIGURAS OCULTAS
MUDANÇAS DE PARADIGMAS PESSOAIS:
VENDO AS FIGURAS OCULTAS
por Marilyn Ferguson,
Na maneira como é vivida pelo indivíduo, a mudança de paradigma
pode ser comparada às descobertas de “figuras ocultas” nas revistas infantis.
Olha-se para um desenho que parece representar uma árvore e um regato.
Alguém, então, pede para que ele os olhe mais atentamente,
procurando alguma coisa que não se tem motivos para acreditar que lá esteja. De
repente, começa-se a perceber objetos camuflados na cena: os ramos das árvores
se transformam em peixes ou em uma pá, as linhas em torno do regato escondem
uma escova de dentes.
Ninguém pode obrigar
uma pessoa a ver os objetos escondidos. Ninguém é persuadido de que os
objetos estão ali. Ou você consegue vê-los ou não. Mas, depois de descobri-los
ali estão claramente sempre que se olha para o desenho. Chega-se a ficar
admirado de como não tinham sido vistos antes.
Ao crescer, sofremos
algumas mudanças de paradigmas de menor vulto: a compreensão de princípios da
geometria, por exemplo, ou de um jogo, ou uma repentina ampliação de nossas convicções
religiosas ou políticas. Cada percepção ampliou o contexto, produziu uma nova
forma de perceber ligações.
O surgimento de um novo
paradigma é ao mesmo tempo humilhante e estimulante; não estávamos errados, e
sim sendo parciais, como se estivéssemos vendo com apenas um olho. Não se trata
de mais conhecimento, mas de um novo conhecer.
Edward Carpenter, cientista social e poeta notavelmente visionário
do final do século XIX, descreveu uma modificação desse tipo:
Quando se inibe o pensamento (e se insiste), acaba-se por chegar
a uma região da consciência abaixo ou além dele... e à percepção de um eu muito
mais amplo do que aquele a quem estávamos acostumados. E como a consciência
comum, com a qual lidamos na ida diária, está antes de mais nada baseada no
pequeno eu local... segue-se que passar além desses limites é morrer para o eu
habitual e para o mundo comum.
É morrer no senso
comum, enquanto que um outro sentido é despertar e verificar que o verdadeiro
eu de uma pessoa, o seu eu mais íntimo, impregna o universo e todos os outros
seres.
Tão grande, tão
formidável é a experiência, que pode ser dito que todas as questões e todas as
dúvidas menores desaparecem ante ela; e é certo que, em milhares e milhares de
casos, o fato de a ela ter sido submetido faz com que um indivíduo tenha
revolucionado sua vida subseqüente e sua visão do mundo.
Carpenter captou a
essência da experiência transformadora: ampliação, conexão, o poder de
transformar uma vida de modo permanente. E, como ele disse, essa “região da
consciência” se abre para nós quando estamos silenciosamente vigilantes, mais
do que quando pensamos e planejamos de modo ativo.
Não só de forma
acidental como deliberada, pessoas têm essas experiências ao longo da história.
Profundas mudanças interiores podem ocorrer em resposta a uma meditação
disciplinada durante uma grave enfermidade, deslocamentos por regiões ermas, no
auge de emoções, em esforços criativos, exercícios espirituais, respiração sob
controle, técnicas para “inibição do pensamento”, ingestão de psicodélicos,
movimentos, isolamento, música, hipnose, sonhos, e na esteira de uma intensa
luta intelectual.
Através dos séculos, em
diferentes partes do mundo, as tecnologias de indução a tais experiências foram
compartilhadas apenas por uns poucos iniciados de cada geração. Fraternidades
dispersas, ordens religiosas e pequenos grupos exploraram o que parecia ser os
limites extraordinários de experiências conscientes. Em suas doutrinas
esotéricas, às vezes se referiram às qualidades de liberação de suas
percepções. Mas seu número era muito pequeno, e não tinham como difundir
amplamente suas descobertas, além de a maior parte dos habitantes da terra
estar preocupada com a sobrevivência,
e não com a transcendência.
De repente, nesta
década, esses sistemas aparentemente simples e a literatura sobre o tema, as
riquezas de inúmeras culturas, tornaram-se acessíveis a populações inteiras,
não só nas formas originais, como nas adaptações contemporâneas. Prateleiras de
livrarias e de bancas de jornal oferecem a sabedoria dos tempos em brochuras. Cursos
de extensão universitária e seminários de fins de semana, cursos de educação de
adultos e centros comerciais oferecem técnicas que auxiliam as pessoas a se
ligarem a novas fontes de energia pessoal, integração e harmonia.
Esses sistemas se
destinam a harmonizar mente e corpo, a ampliar a sensibilidade do cérebro, a
produzir nos participantes um novo despertar d vasto potencial inexplorado. Quando
funcionam, é como adicionar à mente sonar, radar e poderosas lentes.
A ampla adaptação de
tais técnicas e a difusão de seu uso na sociedade foram previstas na década de
50 por P. W. Martin, quando a
pesquisa da “consciência” começou a ser realizada. “Pela primeira vez na
história, o espírito de investigação científica está se voltando para o lado
oposto da consciência. Há agora uma expectativa favorável de que as descobertas
sejam mantidas dessa vez e se tornem não mais um segredo perdido, mas a herança
viva do homem.
Como veremos no
capítulo 2, a idéia de uma rápida transformação da espécie humana, começando
com uma vanguarda, tem sido articulada por alguns dos mais talentosos
pensadores, artistas e visionários da história.
Todos os sistemas para
ampliação e aprofundamento da consciência empregam estratégias similares e
levam a descobertas pessoais surpreendentes similares. Agora também, pela
primeira vez, sabemos que essas experiências subjetivas têm sua contrapartida
objetiva. Investigações em laboratório, como veremos, mostram que esses métodos
integram a atividade do cérebro, tornando-o menos divagante, incitando-o a uma
organização mais elaborada. O cérebro passa por uma transformação
literal bastante elaborada.
As tecnologias
transformadoras nos oferecem caminhos para a criatividade, curas, opções. O dom
da percepção – de produzir novas conexões imaginativas –, que já foi atributo
de uns poucos afortunados, aí está à disposição de quem se dispuser a insistir,
a experimentar, a explorar.
Na maior parte dos casos, a percepção tem sido
acidental. Esperamos por ela do mesmo modo que o homem primitivo esperava por um raio para produzir
fogo. No entanto, o estabelecimento de conexões mentais é o nosso mais importante
instrumento para conhecer, essência da inteligência humana: forjar elos;
penetrar além do fruto; discernir padrões,relações, contextos.
A consequência natural
dessas sutis ciências da mente é a percepção. O processo pode ser rápido a
ponto de nos sentirmos um tanto surpresos, até mesmo um pouco assustados, ante
o surgimento de novas possibilidades. Cada uma delas nos leva a compreender
melhor e a prever com mais precisão o que dará certo em nossas vidas.
Não é de admirar que
tais mudanças da percepção sejam experimentadas como reveladoras, liberadoras,
unificadoras – transformadoras. Tendo em vista a recompensa, faz sentido que
milhões se tenham voltado para essas práticas nos últimos anos. Essas pessoas
descobrem que não lhes é necessário esperar que o mundo “que aí está” mude. Suas
vidas e seus ambientes começam a se transformar à medida que suas mentes se
transformam. Elas verificam que dispõem de um centro saudável e sensato, o
recurso para lidar com as tensões e inovar, e que há amigos por toda parte.
Essas pessoas lutam por
transmitir o que lhes aconteceu. Não dispõem de um racional bem organizado e
poderão sentir-se um pouco tolas ou pretensiosas em falar sobre suas
experiências. Procuram descrever uma sensação de despertar depois de anos de
sono, a reunião de fragmentos de si mesmas, uma cura, um encontrar-se. Para muitas,
a reação dos amigos e parentes é dolorosamente condescendente, não diferente
dos adultos que aconselham um adolescente a não ser demasiado ingênuo ou
idealista. Explicar a si mesmo é realmente difícil.
Fonte Págs. 29-32, “A conspiração aquariana” / Marilyn Ferguson;
tradução de Carlos Evaristo M. Costa; prefácio de Max lerner. – 14ª Ed. – Rio
de Janeiro, Nova Era, 2006.
* * * * *
* * *
*


Nenhum comentário:
Postar um comentário