sexta-feira, 7 de junho de 2019

Mudanças de Paradigmas Pessoais: Vendo as Figuras Ocultas - Marilyn Ferguson


MUDANÇAS DE PARADIGMAS PESSOAIS:
VENDO AS FIGURAS OCULTAS




MUDANÇAS DE PARADIGMAS PESSOAIS:

VENDO AS FIGURAS OCULTAS

por Marilyn Ferguson,


Na maneira como é vivida pelo indivíduo, a mudança de paradigma pode ser comparada às descobertas de “figuras ocultas” nas revistas infantis. Olha-se para um desenho que parece representar uma árvore e um regato.

Alguém, então, pede para que ele os olhe mais atentamente, procurando alguma coisa que não se tem motivos para acreditar que lá esteja. De repente, começa-se a perceber objetos camuflados na cena: os ramos das árvores se transformam em peixes ou em uma pá, as linhas em torno do regato escondem uma escova de dentes.
   Ninguém pode obrigar uma pessoa a ver os objetos escondidos. Ninguém é persuadido de que os objetos estão ali. Ou você consegue vê-los ou não. Mas, depois de descobri-los ali estão claramente sempre que se olha para o desenho. Chega-se a ficar admirado de como não tinham sido vistos antes.
   Ao crescer, sofremos algumas mudanças de paradigmas de menor vulto: a compreensão de princípios da geometria, por exemplo, ou de um jogo, ou uma repentina ampliação de nossas convicções religiosas ou políticas. Cada percepção ampliou o contexto, produziu uma nova forma de perceber ligações.
   O surgimento de um novo paradigma é ao mesmo tempo humilhante e estimulante; não estávamos errados, e sim sendo parciais, como se estivéssemos vendo com apenas um olho. Não se trata de mais conhecimento, mas de um novo conhecer.
   Edward Carpenter, cientista social e poeta notavelmente visionário do final do século XIX, descreveu uma modificação desse tipo:

Quando se inibe o pensamento (e se insiste), acaba-se por chegar a uma região da consciência abaixo ou além dele... e à percepção de um eu muito mais amplo do que aquele a quem estávamos acostumados. E como a consciência comum, com a qual lidamos na ida diária, está antes de mais nada baseada no pequeno eu local... segue-se que passar além desses limites é morrer para o eu habitual e para o mundo comum.
   É morrer no senso comum, enquanto que um outro sentido é despertar e verificar que o verdadeiro eu de uma pessoa, o seu eu mais íntimo, impregna o universo e todos os outros seres.
   Tão grande, tão formidável é a experiência, que pode ser dito que todas as questões e todas as dúvidas menores desaparecem ante ela; e é certo que, em milhares e milhares de casos, o fato de a ela ter sido submetido faz com que um indivíduo tenha revolucionado sua vida subseqüente e sua visão do mundo.

   Carpenter captou a essência da experiência transformadora: ampliação, conexão, o poder de transformar uma vida de modo permanente. E, como ele disse, essa “região da consciência” se abre para nós quando estamos silenciosamente vigilantes, mais do que quando pensamos e planejamos de modo ativo.

   Não só de forma acidental como deliberada, pessoas têm essas experiências ao longo da história. Profundas mudanças interiores podem ocorrer em resposta a uma meditação disciplinada durante uma grave enfermidade, deslocamentos por regiões ermas, no auge de emoções, em esforços criativos, exercícios espirituais, respiração sob controle, técnicas para “inibição do pensamento”, ingestão de psicodélicos, movimentos, isolamento, música, hipnose, sonhos, e na esteira de uma intensa luta intelectual.
   Através dos séculos, em diferentes partes do mundo, as tecnologias de indução a tais experiências foram compartilhadas apenas por uns poucos iniciados de cada geração. Fraternidades dispersas, ordens religiosas e pequenos grupos exploraram o que parecia ser os limites extraordinários de experiências conscientes. Em suas doutrinas esotéricas, às vezes se referiram às qualidades de liberação de suas percepções. Mas seu número era muito pequeno, e não tinham como difundir amplamente suas descobertas, além de a maior parte dos habitantes da terra estar preocupada com a sobrevivência, e não com a transcendência.
   De repente, nesta década, esses sistemas aparentemente simples e a literatura sobre o tema, as riquezas de inúmeras culturas, tornaram-se acessíveis a populações inteiras, não só nas formas originais, como nas adaptações contemporâneas. Prateleiras de livrarias e de bancas de jornal oferecem a sabedoria dos tempos em brochuras. Cursos de extensão universitária e seminários de fins de semana, cursos de educação de adultos e centros comerciais oferecem técnicas que auxiliam as pessoas a se ligarem a novas fontes de energia pessoal, integração e harmonia.
   Esses sistemas se destinam a harmonizar mente e corpo, a ampliar a sensibilidade do cérebro, a produzir nos participantes um novo despertar d vasto potencial inexplorado. Quando funcionam, é como adicionar à mente sonar, radar e poderosas lentes.
   A ampla adaptação de tais técnicas e a difusão de seu uso na sociedade foram previstas na década de 50 por P. W. Martin, quando a pesquisa da “consciência” começou a ser realizada. “Pela primeira vez na história, o espírito de investigação científica está se voltando para o lado oposto da consciência. Há agora uma expectativa favorável de que as descobertas sejam mantidas dessa vez e se tornem não mais um segredo perdido, mas a herança viva do homem.
   Como veremos no capítulo 2, a idéia de uma rápida transformação da espécie humana, começando com uma vanguarda, tem sido articulada por alguns dos mais talentosos pensadores, artistas e visionários da história.
   Todos os sistemas para ampliação e aprofundamento da consciência empregam estratégias similares e levam a descobertas pessoais surpreendentes similares. Agora também, pela primeira vez, sabemos que essas experiências subjetivas têm sua contrapartida objetiva. Investigações em laboratório, como veremos, mostram que esses métodos integram a atividade do cérebro, tornando-o menos divagante, incitando-o a uma organização mais elaborada. O cérebro passa por uma transformação literal bastante elaborada.

   As tecnologias transformadoras nos oferecem caminhos para a criatividade, curas, opções. O dom da percepção – de produzir novas conexões imaginativas –, que já foi atributo de uns poucos afortunados, aí está à disposição de quem se dispuser a insistir, a experimentar, a explorar.
   Na maior parte dos casos, a percepção tem sido acidental. Esperamos por ela do mesmo modo que o homem  primitivo esperava por um raio para produzir fogo. No entanto, o estabelecimento de conexões mentais é o nosso mais importante instrumento para conhecer, essência da inteligência humana: forjar elos; penetrar além do fruto; discernir padrões,relações, contextos.
   A consequência natural dessas sutis ciências da mente é a percepção. O processo pode ser rápido a ponto de nos sentirmos um tanto surpresos, até mesmo um pouco assustados, ante o surgimento de novas possibilidades. Cada uma delas nos leva a compreender melhor e a prever com mais precisão o que dará certo em nossas vidas.
   Não é de admirar que tais mudanças da percepção sejam experimentadas como reveladoras, liberadoras, unificadoras – transformadoras. Tendo em vista a recompensa, faz sentido que milhões se tenham voltado para essas práticas nos últimos anos. Essas pessoas descobrem que não lhes é necessário esperar que o mundo “que aí está” mude. Suas vidas e seus ambientes começam a se transformar à medida que suas mentes se transformam. Elas verificam que dispõem de um centro saudável e sensato, o recurso para lidar com as tensões e inovar, e que há amigos por toda parte.
   Essas pessoas lutam por transmitir o que lhes aconteceu. Não dispõem de um racional bem organizado e poderão sentir-se um pouco tolas ou pretensiosas em falar sobre suas experiências. Procuram descrever uma sensação de despertar depois de anos de sono, a reunião de fragmentos de si mesmas, uma cura, um encontrar-se. Para muitas, a reação dos amigos e parentes é dolorosamente condescendente, não diferente dos adultos que aconselham um adolescente a não ser demasiado ingênuo ou idealista. Explicar a si mesmo é realmente difícil.

Fonte Págs. 29-32, “A conspiração aquariana” / Marilyn Ferguson; tradução de Carlos Evaristo M. Costa; prefácio de Max lerner. – 14ª Ed. – Rio de Janeiro, Nova Era, 2006.






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