[A VERDADE SOBRE OS LABORATÓRIOS FARMACÊUTICOS]
“De vento em popa”
por
Dra. Marcia Angell,
“De vento em popa”
por Dra. Marcia Angell,
À
medida que seus lucros subiam vertiginosamente durante as décadas de 1980 e
1990, o mesmo acontecia com o poder de influência dos laboratórios
farmacêuticos, Já em 1990, a indústria tinha assumido seus contornos atuais,
como uma atividade com um controle sem precedentes sobre sua própria fortuna.
Por exemplo, se não lhe agradasse algum aspecto a respeito do FDA, o órgão
federal que supostamente regularia a indústria, ela poderia modificar esse
aspecto por meio de pressão direta ou de seus amigos no Congresso. Os dez
maiores laboratórios farmacêuticos (que incluíam empresas européias) tiveram lucros
de quase 25% das vendas em 1990; e, à exceção de uma pequena queda na época da
proposta de reforma do atendimento de saúde por parte do presidente Bill
Clinton, os lucros com o potencial das vendas permaneceram praticamente os
mesmos durante a década seguinte. (É claro que, em termos absolutos, com o
aumento das vendas, houve um aumento correspondente nos lucros). Em 2001, os
dez laboratórios farmacêuticos americanos na lista da Fortune 500
(não exatamente os mesmos dez maiores do mundo, mas suas margens de lucro são
bastante semelhantes) estavam muito acima de todas as outras indústrias
americanas em média do retorno líquido, fosse como percentagem sobre as vendas
(18,5%), sobre o patrimônio (16,3%) ou sobre o patrimônio líquido (33,2%).
Trata-se
de margens de lucro espantosas. Em comparação, o retorno líquido médio para
todos os outros setores na Fortune 500 foi de apenas 3,3% das vendas. A
atividade bancária comercial, ela própria nada negligente em seu papel de setor
agressivo, com muitos amigos em postos de importância, ficou num distante
segundo lugar, com 13,5% das vendas.
Em 2002, com a continuação do declínio
econômico, os gigantes da indústria farmacêutica apresentaram apenas uma
pequena queda nos lucros – de 18,5% para 17% das vendas. O fato mais espantoso
acerca de 2002 é que os lucros somados dos dez laboratórios farmacêuticos na
Fortune 500 (US$ 35,9 bilhões) foram superiores aos lucros somados de todas as
outras 490 empresas (US% 33,7 bilhões). Em 2003, os lucros das empresas farmacêuticas
da Fortune 500 caíram para 14,3% das vendas, ainda muito acima da percentagem
média para todos os setores, 4,6%, naquele ano. Quando afirmo que essa é uma
indústria lucrativa, quero dizer lucrativa de verdade. É difícil
imaginar até que ponto os gigantes da indústria farmacêutica nadam em dinheiro.
As despesas da indústria farmacêutica com
pesquisa e desenvolvimento, embora altas, são constantemente muito inferiores
aos lucros. Para as dez maiores empresas, elas somaram apenas 11% das vendas em
1990, subindo ligeiramente para 14% em 2000. O maior item isolado no orçamento
não é nem P&D, nem mesmo lucros, mas algo geralmente chamado de “marketing
e administração” – uma denominação que varia um pouco de uma empresa para
outra. Em 1990, oi valor estarrecedor de 36% das vendas foi para esta
categoria, e essa proporção permaneceu praticamente a mesma por mais de uma
década. Vale ressaltar que essa proporção equivale a 2,5 vezes o valor das
despesas com P&D.
Esses números foram colhidos dos próprios
relatórios anuais apresentados pelo setor à Securities and Exchange Commission
(SEC) [Comissão de Valores Mobiliários, em português] e aos acionistas, mas o
que realmente entra nessas categorias não é nenhum pouco claro, porque os
laboratórios farmacêuticos guardam essas informações a sete chaves. É provável,
por exemplo, que o P&D inclua muitas atividades que a maioria das pessoas
consideram marketing, mas ninguém tem como saber ao certo. Por sua vez, “marketing
e administração” constituem uma gigantesca caixa-preta que talvez inclua o que
o setor chama de “educação”, bem como publicidade e promoções, custos jurídicos
e salários de executivos – que são assombrosos. Segundo um relatório do grupo
sem fins lucrativos Families USAQ, o ex-presidente e diretor-executivo da Bristol-Myers
Squibb Charles A. Heimbold Jr. recebeu US$ 74.890.918 em 2001, sem contar o
valor de US$ 75.095.611 em opções não exercidas de compra de ações. O
presidente da Wyeth ganhou US$ 40.521.011, fora seus US$ 40.629.459, em opções
de compra de ações. E assim por diante. Trata-se de um setor que recompensa
regiamente seus membros.
Em anos recentes, as dez maiores empresas
incluíram cinco gigantes europeus – GlaxoSmithKline, AstraZeneca, Novartis,
Roche e Aventis. Suas margens de lucro são semelhantes às das equivalentes
americanas, da mesma forma que suas despesas com P&D e com marketing e
administração. Além disso, elas participam da associação do setor, portadora do
nome enganoso de Pharmaceutical Research and Manufacturers of America* (PhRMA).
Ouvi recentemente Daniel Valesa, o presidente e diretor-executivo da Novartis,
falar numa conferência. Ele demonstrava nítida satisfação com o clima comercial
e de pesquisa nos Estados Unidos.
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Numa tradução aproximada, “Pesquisa e Manufatura de Produtos farmacêuticos da
América”. (N. da T.)
“A
liberdade de preços e a rapidez na aprovação garantem um acesso rápido às
inovações sem restrições”, disse ele, parecendo o mais autêntico dos
americanos, apesar de seu encantador sotaque suíço. Sua empresa está agora
transferindo as operações de pesquisa para um local próximo ao Massachusetts
Institute of Technology (MIT), uma incubadora de pesquisa de base, cercada de
empresas de biotecnologia. Suspeito que essa mudança não esteja de modo algum
relacionada à “liberdade de preços e rapidez na aprovação”, mas sim que tenha
tudo a ver com a oportunidade de se aproveitar da pesquisa financiada pelo contribuinte
americano, nos termos da lei Bayh-Dole, e da proximidade em relação aos
cientistas médicos americanos que realizam as pesquisas.
Fonte:
págs. 26-29, A Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos – Como somos
enganados e o que podemos fazer a respeito; Marcia Angell, tradução de Waldéa
Barcellos; Rio de Janeiro, Record, 2007
[A PREVENÇÃO É A MELHOR MEDICINA!]
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