JUDAS ISCARIOTES: TRAIDOR OU HERÓI?
JUDAS ISCARIOTES: TRAIDOR OU HERÓI?
Documentos históricos questionam a imagem
de vilão do apóstolo acusado de trair Jesus Cristo
LIA HAMA
Judas Iscariotes, o apóstolo que, por 30 moedas, entregou Jesus
Cristo aos soldados romanos que o crucificaram, não foi um traidor, mas, sim,
um herói. Judas agiu dessa maneira a pedido do próprio Jesus, que tinha de ser
crucificado para voltar como o salvador da humanidade. Essa interpretação
ganhou força graças a um antigo manuscrito do século 4 que só agora, depois de
quase 17 séculos, foi revelado ao público. Chamado de Evangelho de Judas, o
documento foi descoberto nos anos 1970 numa caverna no Egito e resistiu ao
tempo graças ao clima seco da região. Desde então o manuscrito passou por
diversas mãos até ser entregue em 2001 à Fundação Mecenas, em Basiléia, na
Suíça. Trata-se de um documento de 31 páginas de papiro, cujo texto em egípcio
antigo (o copta) teria sido escrito pelos cainitas, uma seita herética do
início do cristianismo. O conteúdo, divulgado na Páscoa de 2017 pela
revista National Geographic, é motivo de acalorados debates dentro e fora da
Igreja Católica e, acima de tudo, revela quão pouco ainda sabemos sobre a vida
de Jesus Cristo.
Há registros sobre a existência do Evangelho de Judas desde o
século 2, quando Irineu, bispo de Lyon, na Gália romana, escreveu um tratado
intitulado Contra as Heresias, no qual condena os cainitas por venerarem Judas.
“Eles (os cainitas) produziram uma história fictícia, a qual chamam de
Evangelho de Judas”, afirma o texto, escrito no ano 180. Estudiosos apontam que
o manuscrito recentemente traduzido pelo suíço Rodolphe Kasser, um dos maiores
especialistas em língua copta do mundo, é do século 4 e seria uma versão do
original grego do século 2 a que se refere Irineu. O bispo de Lyon indicou os
quatro evangelhos canônicos – de Mateus, de João, de Marcos e de Lucas – como
os únicos que os cristãos deveriam ler. Sua lista acabou se tornando a política
oficial da Igreja e perdura até hoje. Os demais manuscritos dos primórdios do
cristianismo foram considerados apócrifos (não reconhecidos pela Igreja), entre
eles o Evangelho de Maria, sobre Maria Madalena, e o Evangelho de Judas.
Acredita-se que os autores dos textos apócrifos pertenciam, em sua maioria, ao
gnosticismo, movimento religioso que rivalizou com a Igreja Católica nos
primeiros séculos depois de Cristo.
Por essa razão, Judas sempre foi tido como um dos grandes vilões
da Bíblia. Basta olhar no dicionário: judas é sinônimo de traidor, do indivíduo
que trai a confiança dos outros. Todos os anos, em dezenas de países, bonecos
feitos à sua imagem são malhados e queimados em praça pública no Sábado de
Aleluia. Um castigo simbólico contra alguém que, segundo os evangelhos tradicionais,
entregou o mestre aos carrascos no Jardim das Oliveiras, identificando-o com um
beijo na face. Na nova interpretação, no entanto, Judas teria agido a pedido de
Jesus, mesmo sabendo que depois seria perseguido por causa de seu ato. “Você
será amaldiçoado”, teria alertado Jesus a Judas, seu discípulo favorito.
Cumprida sua missão, Judas não teria se enforcado, como registram os evangelhos
canônicos, mas se retirado para meditar no deserto.
“Essa descoberta espetacular de um texto antigo, não-bíblico, é
considerada por especialistas uma das mais importantes atualizações dos últimos
60 anos no que se refere ao nosso conhecimento sobre a história e a diferentes
opiniões teológicas sobre o começo da era cristã”, afirmou Terry Garcia,
vice-presidente-executivo da National Geographic, ao divulgar o manuscrito. A
opinião é compartilhada pelo especialista em escrituras bíblicas Charles
Hedrick, professor da Universidade do Missouri, nos Estados Unidos. “Nesse
texto, Judas não é o vilão. É o mocinho”, afirma. Na principal passagem do
documento, Jesus diz a Judas: “Tu superarás todos eles. Tu sacrificarás o homem
que me cobriu”. Segundo estudiosos, a frase significa que Judas ajudaria a
libertar o espírito de Jesus de seu invólucro carnal.
Culpa dos judeus
Apesar da nova versão que veio agora à tona, a imagem de Judas
cristalizada no imaginário popular é a do “vilão sinistro”, disposto a fazer
qualquer coisa por dinheiro. Há quem diga que a construção dessa imagem fez
parte de uma tentativa cristã de disseminar o anti-semitismo. Para se
desvincular do judaísmo, cristãos teriam achado conveniente responsabilizar os
judeus pela execução de Cristo e teriam usado a imagem de Judas para criar o
estereótipo judeu. Assim, o governador romano Pôncio Pilatos teria um papel bem
menor que o de sacerdotes judeus e Judas na morte de Jesus. Em pinturas da
Idade Média, Judas é retratado com um nariz grande e adunco, em traços
exagerados, geralmente associados aos semitas. Em A Divina Comédia, de Dante
Alighieri, ele é relegado ao último dos círculos do Inferno, onde é devorado
por Lúcifer. O teólogo Fernando Altemeyer, professor da PUC-SP, lembra que
Judas não foi o único apóstolo a trair Jesus: “Os outros também o fizeram, ao
abandonar o mestre. Pedro, por exemplo, negou o amigo três vezes”. O único a
levar a culpa, no entanto, foi Judas.
Apesar de toda a polêmica, o Vaticano deixou claro que a
divulgação do manuscrito não representará qualquer mudança de sua posição. O
jornal britânico The Times afirmou que o monsenhor Walter Brandmuller,
presidente do Comitê Pontifício para Ciências Históricas, estaria liderando uma
comissão do Vaticano para reabilitar Judas – informação rapidamente negada por
Brandmuller. “Não há nenhuma campanha no Vaticano, nenhum movimento para a
reabilitação do traidor de Jesus”, afirmou o monsenhor, que definiu o documento
como um “produto de uma fantasia religiosa”. Segundo Brandmuller, apesar de
lançar luzes para melhor compreensão do cristianismo primitivo, o texto
continuará sendo considerado herético pela Igreja Católica. Parece que ainda
não será dessa vez que o último dos apóstolos conseguirá reverter a sua imagem
de vilão.
As peripécias do papiro
Depois de ter sido descoberto no Egito nos anos 1970, o papiro
com o Evangelho de Judas foi provavelmente roubado e contrabandeado. Em 2000, o
documento chegou às mãos de uma comerciante grega de antiguidades e, no ano
seguinte, foi entregue à Fundação Mecenas, na Suíça, para ser restaurado e traduzido.
O acordo envolveu a National Geographic, que teria pago cerca de 1 milhão de
dólares pelos direitos de publicação da história.
Saiba Mais
Judas: Betrayer or
Friend of Jesus? William Klassen,
Fortress, 1996
Defende que muitas das idéias sobre o apóstolo são equivocadas e
fruto de interpretações malfeitas da Bíblia.
O Evangelho de Judas, Simon Mawer, Ediouro, 2001
Romance sobre um padre católico que descobre um manuscrito que
pode abalar os fundamentos do cristianismo.
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