SAÚDE / TEMPERATURA / GINO SEGRÈ / FÍSICA
“SISTEMAS REGULADORES”
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“Os mecanismos reguladores que nos mantêm quase sempre na faixa normal são
dirigidos por um sistema-mestre de controle, inserido nas profundezas do
cérebro.” ---
“SISTEMAS REGULADORES”
--- “Os mecanismos reguladores que nos mantêm quase sempre na faixa normal são dirigidos por um sistema-mestre de controle, inserido nas profundezas do cérebro.” ---
A
rigor, 37ºC representam apenas uma abreviatura conveniente, pois as medições
variam, ainda que de modo previsível, nos limites de nosso corpo. A temperatura
de nossa pele costuma ficar uns seis graus abaixo de nossa temperatura interna,
como se pode verificar. facilmente, ao segurar um termômetro entre os dedos, em
vez de colocá-lo sob a língua. Os resultados orais e retais também diferem,
sendo este último, comumente, cerda de um grau mais alto que o primeiro. A temperatura interna varia entre os órgãos,
dependendo do metabolismo e do fluxo sangüíneo. Antes mesmo que se medisse a
temperatura, nosso ancestrais achavam que a parte mais quente do corpo era o
coração e, em particular, o coração dos “tipos de sangue quente”. Agora, em
termos mais prosaicos, descobrimos que o fígado, nitidamente menos passional e
em geral situado perto dos 40,5ºC, tem a honra de ser o mais quente.
Na idéia de todos os seres humanos terem a
mesma temperatura corporal devia parecer muito curiosa antes do século XVII. Só
existiam termômetros rudimentares e nenhum deles era usado para fazer
verificações cuidadosas, comparando um ser humano com outros. Havia uma
suposição de que a temperatura do corpo, medida apenas externamente e, ainda
por cima, de maneira tosca, refletia o clima local e, era mais alta nos
trópicos que nas regiões temperadas.
O
primeiro problema enunciado no influente De logística médica, de Johannes Hasler, publicado em 1578, é:
“descubra o grau de temperatura natural de cada homem, tal como determinado por
sua idade, pela época do ano, pela elevação do pólo (isto é, a latitude) e por
outras influências;” As tabelas detalhadas de Hasler indicam aos médicos como
misturar seus medicamentos de acordo com graus de calor e frio, com as
necessidades do paciente e com as características de seu meio. É claro que a
idéia de a febre estar associada à doença era bem conhecida por Hasler. Por
isso é que ele alertava os que exerciam a profissão a ficarem atentos às
mudanças de temperatura.
Sabemos que nossa temperatura corporal não
varia de acordo com nossa localização. Ela efetivamente passa por ligeiras
mudanças conforme a hora do dia, elevando-se aos poucos até atingir um pico no
meio da tarde, tipicamente 0,8 graus acima do mínimo verificado à noite; 37º
são simplesmente uma média diária. Contudo, até mesmo esta afirmação precisa de
uma ressalva, como nos dizem os Princípios de medicina interna de Harrison:
Embora se tenha dito que a temperatura “normal” dos seres
humanos é de 37º, com base em observações originais feitas por Wunderlich há
mais de 120 anos, a temperatura oral média geral dos indivíduos sadios de 18 a
40 anos corresponde, na verdade, a 36,7º.
A temperatura acima do normal é chamada de pirexia ou, mais comumente, febre,
enquanto que a que fica abaixo do normal é conhecida como hipotermia. Os mecanismos reguladores que nos mantêm quase sempre
na faixa normal são dirigidos por um sistema-mestre de controle, inserido nas
profundezas do cérebro.
HIPOTÁLAMO
E GLÂNDULA PITUITÁRIA (HIPÓFISE]
O hipotálamo, órgão minúsculo eu regula a
temperatura, controla também as secreções que ditam muitas das funções
principais funções metabólicas, regula os níveis de água, açúcar e gordura no
corpo e orienta a liberação dos hormônios que inibem e intensificam nossas
atividades. Harvey Cuching, o grande
médico norte-americano do início do século XX, que estudou o comportamento do hipotálamo e da glândula pituitária [hipófise],
assim descreveu nosso hipotálamo:
Aqui, neste ponto bem escondido, que quase se pode cobrir com a
unha do polegar, encontra-se a própria mola mestra da vida primitiva –
vegetativa, emocional e reprodutora – à qual, com maior ou menor sucesso, o
homem superpôs um córtex de inibições.
Nosso corpo produz calor através de uma
multiplicidade de mecanismos metabólicos, mantidos pela alimentação e pelos
líquidos ingeridos. O corpo dissipa aproximadamente 85% de seu calor pela pele,
enquanto o restante sai pela respiração e pela excreção. Como a pele é o principal
ponto de entrada e saída do calor, é nela que devemos buscar uma ligação com o
hipotálamo. E há, de fato, duas vias importantes. Uma é o sistema nervoso
periférico e a outra é a rica trama rendilhada subjacente formada por pequenos
vasos sangüíneos, conhecidos como capilares.
HIPOTÁLAMO
Os sinais provenientes dessas duas fontes
integram-se na parte termorreguladora
do hipotálamo. Se sua leitura diz que o corpo está frio demais, os capilares se
contraem e, desse modo, conservam o calor; se ele está quente demais, os
capilares se dilatam. Ao mesmo tempo, são enviadas mensagens hormonais às
glândulas sudoríparas, ordenando-lhes que segreguem umidade – suor – através
dos poros cutâneos.
Quando
isso acontece, os sinais enviados ao cérebro sugerem vigorosamente que se
proceda a mudanças comportamentais, como vestir ou despir a roupa, sempre
mantendo, é claro, as “inibições” de Cushing. O fluxo sangüíneo que entra no
hipotálamo proporciona uma verificação constante dos ajustes efetuados e, se
necessário, indica ao hipotálamo as secreções necessárias para reajusta a
temperatura. Mais uma vez, só nos resta admirar, deslumbrados, o funcionamento
eficiente de um sistema desenvolvido ao longo de milhões de anos.” (...)
GINO SEGRÈ
Fonte:
págs. 17-19, do livro “Uma questão de graus: o que a temperatura revela sobre o
passado e o futuro de nossa espécie, nosso planeta e nosso universo; Gino
}Segrè; tradução de Vera Ribeiro. – Rio de Janeiro: Rocco, 2005.
GINO
SEGRÈ é professor de física e astronomia na Universidade da Pensilvânia.
Especialista de fama internacional na física teórica das partículas elementares
de alta energia, Segrè recebeu prêmios da Fundação Nacional de Ciências (EUA),
da Fundação Alfred P. Sloan, da Fundação S. Guggenheim e do Departamento de
Energia dos Estados Unidos. Vive na cidade de Filadélfia. Este é seu primeiro
livro.
GLOSSÁRIO:
Hipotálamo. O hipotálamo (do grego antigo ὑποθαλαμος,
sob o tálamo) é uma região do encéfalo dos mamíferos (tamanho aproximado ao de
uma amêndoa) localizado sob o tálamo, formando uma importante área na região
central do diencéfalo, tendo como função regular determinados processos
metabólicos e outras atividades autônomas.
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