MEIO AMBIENTE - PRESERVAÇÃO - DIÓXIDO DE CARBONO
Joanne
Chory: “As plantas estão estressadas, florescem em épocas que não deveriam”
Pergunta. Que efeito tem a mudança climática sobre
as plantas?
Resposta. Todas as plantas estão estressadas. Há
20 anos é fácil de ver. Noto no meu jardim: tudo floresce quando não deveria.
Tenho uma magnólia chinesa que está dando flor no meio do inverno, não tem
nenhum sentido. E depois morre no verão, quando deveria estar verde e bonita.
Costumo dizer que minha magnólia vive no fuso horário da China e
tem jet lag.
Joanne Chory: “As plantas estão estressadas, florescem em épocas que não deveriam”
Botânica e geneticista
do Instituto Salk, Joanne Chory foi premiada por seu revolucionário projeto
sobre o emprego de cultivos na redução do CO2
Pablo
ximénez de sandoval
12 AGO 2019
Joanne Chory acredita
que uma das ferramentas mais efetivas para frear a mudança
climática está diante de nós. Não é preciso fabricar nada. É
algo que vem sendo naturalmente aperfeiçoado há milhões de anos, e basta
direcionar um pouco o processo para que tenhamos um importante impacto na
redução das concentrações atmosféricas de CO2. Com uma modificação genética, as
plantas podem desenvolver raízes mais duras e profundas, que retenham parte do
CO2 que elas normalmente expelem na atmosfera ao apodrecerem. Em grande escala,
se isso se aplicar nos grandes cultivos de cereais do mundo, poderia reduzir em
20% a emissão de dióxido de carbono decorrente da mudança climática. A ideia de
Chory (Boston, 63 anos) lhe valeu o Prêmio Princesa de Astúrias de Pesquisa
deste ano. Ela recebeu a reportagem do EL PAÍS no seu escritório do Instituto
Salk em La Jolla, Califórnia. Os sintomas do Parkinson que
lhe foi diagnosticado há 15 anos já são muito visíveis. Mesmo assim, continua
indo diariamente ao trabalho. No mínimo, é um estímulo para correr mais
depressa na batalha pelo planeta.
Pergunta. Quando começou a pesquisar a genética
das plantas, há 30 anos, o aquecimento global só era estudado pelos
especialistas em clima, não preocupava outras disciplinas.
Resposta. Sim, o resto da comunidade científica
estava dormindo. Os jornais mal falavam disso. O debate estava circunscrito à
climatologia. Como em tudo, há um mainstream na ciência. Não
sei de quem é a culpa, ou se há uma culpa. Talvez as pessoas não tivessem suficiente
informação para perceber que nós estávamos causando o problema.
P. Que efeito tem a mudança climática sobre
as plantas?
R. Todas as plantas estão estressadas. Há
20 anos é fácil de ver. Noto no meu jardim: tudo floresce quando não deveria.
Tenho uma magnólia chinesa que está dando flor no meio do inverno, não tem
nenhum sentido. E depois morre no verão, quando deveria estar verde e bonita.
Costumo dizer que minha magnólia vive no fuso horário da China e
tem jet lag.
P. Seu projeto em questão, como ele
favorece que as plantas participem da luta contra a mudança climática?
R. O objetivo é ajudar as plantas a
redistribuírem parte do dióxido de carbono que absorvem normalmente com a
fotossíntese. Ou seja, pegam CO2 do ar e água da terra, e por meio da
fotossíntese o transformam em açúcares. Quando a planta morre, esses açúcares
voltam para a atmosfera transformados novamente em dióxido de carbono. Nosso
projeto busca que a planta guarde esse CO2 em uma parte que seja resistente à
decomposição. Os níveis de CO2 são mais altos no inverno, quando acontece a
decomposição, e mais baixos quando as plantas estão crescendo. Isso nos indica
que há uma forma de facilitar que as plantas ajudem a reduzir o dióxido de
carbono.
P. Como são essas plantas modificadas?
“Em 2030, dentro de 10
anos e quatro meses, veremos mudanças irreversíveis no clima que não nos
permitirão voltar atrás”
R. Têm raízes mais profundas e produzem
mais suberina, que é basicamente a cortiça. Aí armazenam carbono. Nas secas,
isso evita que a planta seque. E se houver muita água evita que ela se afogue.
Fazemos a planta fabricar mais cortiça, em raízes maiores e mais profundas. A
planta absorve a mesma quantidade de CO2, e nosso trabalho afeta só a maneira
como o distribui. Em vez de pô-lo nas folhas, que se decompõem e o devolvem à
atmosfera, o pomos nesse tecido, dentro do solo e estável. Para reduzir o nível
de dióxido de carbono da atmosfera você pode
utilizar máquinas muito grandes e caras. Ou pode deixar que as plantas façam o
que sabem fazer e estão aperfeiçoando há 500 milhões de anos. Só queremos
treiná-las para que uma parte do CO2 elas enterrem em vez de soltá-lo todo na
atmosfera.
P. De que plantas estamos falando?
R. Cultivos. Iremos atrás dos mais
habituais. O fato de modificar as raízes não afeta o consumo humano, porque não
é essa a parte que comemos. Não acho que já tenha se tentado que os cultivos
absorvam mais CO2. Temos um amplo espaço para jogar com a genética.
P. Acredita que as pessoas entendem a
urgência da mudança climática?
R. Meus filhos de 24 e 21 anos não entendem
totalmente. A maioria das pessoas mais velhas tampouco. Acham que será
solucionado pela tecnologia, que alguém dará um jeito. Porque foi assim que o
Ocidente evoluiu. Mas neste caso não será suficiente. As mudanças em nível
global são grandes. E as plantas têm um currículo neste sentido.
P. Qual será o ponto de não retorno?
R. Ele vai mudando. Agora é 2030, dez anos
e quatro meses a partir de hoje. Esse é o ponto em que veremos mudanças
irreversíveis que não nos permitam voltar atrás. Acho que, sim, vai ocorrer
rápido assim, e talvez mais rápido ainda.
P. E com que rapidez
seu projeto poderia ser desenvolvido para ter um impacto?
R. Achamos que faltam
15 anos. É o tempo que se requer para plantar tudo o que precisamos. Ao final
será algo que poderá ser incorporado a qualquer planta. Talvez os supermercados
acabarão por vendê-las. O chamado à ação é para o mundo inteiro.
P. Gostaria de lhe perguntar sobre sua
doença. Como se encontra e como ela afeta o seu trabalho?
R. Bom, já está vendo que tenho sintomas.
Por enquanto vou bem. Os sintomas às vezes me esgotam, mas este projeto me
mantém com vontade de continuar, sinto que é urgente. É bom ter algo a que se
agarrar. Quero estar aqui quando as primeiras plantas forem plantadas. Então,
se eu durar cinco anos mais talvez consiga. Mas aqui tenho colegas que farão um
bom trabalho sem mim se eu ficar mal. Nunca sei como será meu dia quando me
levanto pela manhã. O Parkinson me ensinou que é preciso fazer as coisas agora.
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