JUDAS E JESUS
JUDAS ESCARIOTES: “o homem de Kheriot”, sua cidade natal
II
- Zelote
JUDAS ESCARIOTES: “o homem de Kheriot”, sua cidade natal
II - Zelote
Judas adorava o nome
(Yehoudah em hebraico) que Rubens Simão, seu pai, lhe dera, apesar de tê-lo
feito por ironia...
Judas ou Yehoudah era o
nome do quarto filho de Jacó e Lea, aquele que é mencionado no livro do
Gênesis:
Concebeu quarta vez e
deu à luz um filho, e disse: Agora louvarei o Senhor, e por isso pôs-lhe o nome
de Judas; e cessou de dar à luz (Gn 29:35).
Ele adorava as cinco
consoantes do seu nome – YHWDH – onde era possível reencontrar o Nome divino, o
Tetragrama YHWH e as letras HWDH que significam “louvar”. Judas é o chefe da
tribo que deve se consagrar ao “louvor” de YHWH. Depois disto, Lea cessou de
dar à luz, ela trouxe ao mundo o essencial; é por esta razão que Israel existe:
para dar testemunho e louvor ao Eterno, o Único, aquilo pelo qual tudo
subsiste. Seu nome era sua missão; apesar deste corpo, deste rosto e desta
ingrata herança, ele tinha como missão louvar “O Ser que é o que é” e destruir
tudo que se opusesse a este justo louvor, a esta ortodoxia...
Havia ainda um outro
nome que lhe agradava e que também continha o Tetragrama sagrado: “Yeshoua” que
significa: “Deus, YHWH, é o Salvador, o Libertador”. Tendo em vista suas
aspirações de ver seu povo libertado, Judas achava que o Nome Yeshoua lhe teria
caído melhor e teria sido de mais ajuda para auxiliá-lo a se “programar” como
Messias ou colaborador do Messias de Israel.
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2. Em grego: orthos = justo; doxa = louvor.
Judas ainda não se considerava
um possível futuro messias para os judaicos, sua tribo, mas muitas vezes ele se
sentia perturbado ao ler o Livro dos Profetas que narrava, em Isaías, a vinda
de um messias, sem beleza e sem esplendor, que carregava consigo a rejeição do
povo que ele viera salvar. Cada uma das palavras parecia ter sido especialmente
escrita para ele:
E ele subirá como arbusto diante dele,
E como raiz que sai de uma terra
sequiosa,
Ele não tem beleza, nem formosura,
E vimo-lo e não tinha aparência do que
era,
E por isso não fizemos caso dele.
Ele era desprezado, e o último dos
homens,
um homem de dores;
E experimentado nos sofrimentos, e o
seu rosto estava encoberto;
Era desprezado, e por isso nenhum caso
fizeram dele.
Verdadeiramente ele foi o que tomou
sobre si as nossas fraquezas (e pecados).
E ele mesmo carregou com as nossas
dores,
E nós o reputamos como um leproso,
E como um homem ferido por Deus e
humilhado.
Mas foi ferido por causa das nossas
iniqüidades,
Foi despedaçado por causa dos nossos
crimes;
O castigo que nos devia trazer a paz
caiu sobre ele,
E nós fomos sarados com as suas
pisaduras. (Is 53:2-5).
Se não era dele de quem
falava o profeta, ele gostaria, ao menos, de ser próximo deste Messias.
Foi junto aos zelotes,
aqueles que têm “zelo” ou ardor por Deus e pela Torah, que ele encontrou uma
confirmação para sua vocação. Eles também eram chamados de “sicários”, nome
derivado deste pequeno punhal do qual eles nunca se separavam e que era um
lembrete de que existe uma violência e uma guerra justas quando a honra de
Deus, de sua terra e dos homens a quem ela é prometida é injuriada ou colocada
em xeque.
Ele se aproximou de um
outro Judas, conhecido como Judas, o
Galileu, filho do célebre Ezequias
que se revoltara contra os romanos e contra o poder do Rei Herodes. Após a
morte do seu pai, assassinado por Herodes, e após a morte deste último, Judas
tinha retomado a tocha e tomara de assalto o arsenal de Seéforis com a ajuda de
um grupo de partidários. Ele dispunha agora das armas do butim para conduzir
sua própria luta armada...
Quando o procurador
romano Quirinius ordenou um
recenseamento para que ninguém escapasse do imposto devido a César, os judeus
de Jerusalém ficaram divididos: o grande sacerdote Joazar aconselhou que os fiéis se curvassem às exigências do
invasor... Judas, apoiado pelo fariseu Sadoq,
propôs ao povo que resistisse. Ele fez espalhar a crença de que era vergonhoso
consentir em pagar um tributo aos romanos e, sobretudo, tolerar um outro
senhor, ainda por cima mortal, além de Deus.
Foi a partir deste
momento que Judas, o Galileu,
tornou-se chefe de um verdadeiro exército cada vez mais numeroso, que vivia
refugiado nos planaltos, mas que possuía bases seguras em Jerusalém. Foi em uma
dessas bases que ele encontrou pela primeira vez Judas que dali em diante passaria a ser chamado “Iscariotes” ou “o homem de Kheriot”, sua cidade natal. Mesmo nome,
mesmo ideal: era preciso acabar o mais rápido possível com os Herodes e com o
invasor romano, expulsar todos os demônios da terra santa através da fé e da
força.
Os zelotes eram apoiados pelo povo assoberbado pelos impostos, mas
também pelos fariseus que, apesar de
não aprovarem sua violência, compartilhavam do seu zelo pela rígida aplicação
da Torah.
Os zelotes consideravam
os saduceus e os levitas, as grandes famílias
sacerdotais que enriqueciam com a renda do templo e que colaboravam com o ímpio
poder de Roma, inimigos de Deus e de seu povo. Os essênios, que tinham rompido com os grandes sacerdotes do templo,
eram mais tolerados. Vivendo retirados no deserto, eles acreditavam que através
da sua vida pura e de suas preces eles iriam apressar a manifestação do Mestre da Justiça que eles
consideravam, se não como o Messias, como seu precursor.
Para Judas, era
evidente que o Messias anunciado pelos profetas seria também o “rei dos judeus”
aguardado pelo povo e não proviria da linhagem de Herodes; sua descendência de
origem idumaica era judia apenas “pela metade” e eles se conduziam
como pagãos. (...)
Jean-Yves Leloup
Fonte: págs. 15-17, do livro “Judas e Jesus” duas faces de uma
única revelação / Jean-Yves Leloup; tradução: Karin Andrea de Guise;
Petrópolis, RJ : Vozes, 2007


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