quarta-feira, 14 de agosto de 2019

JUDAS ESCARIOTES: “o homem de Kheriot”, sua cidade natal


JUDAS E JESUS

JUDAS ESCARIOTES: “o homem de Kheriot”, sua cidade natal

II - Zelote



JUDAS ESCARIOTES: “o homem de Kheriot”, sua cidade natal


II - Zelote


   Judas adorava o nome (Yehoudah em hebraico) que Rubens Simão, seu pai, lhe dera, apesar de tê-lo feito por ironia...
   Judas ou Yehoudah era o nome do quarto filho de Jacó e Lea, aquele que é mencionado no livro do Gênesis:

   Concebeu quarta vez e deu à luz um filho, e disse: Agora louvarei o Senhor, e por isso pôs-lhe o nome de Judas; e cessou de dar à luz (Gn 29:35).

   Ele adorava as cinco consoantes do seu nome – YHWDH – onde era possível reencontrar o Nome divino, o Tetragrama YHWH e as letras HWDH que significam “louvar”. Judas é o chefe da tribo que deve se consagrar ao “louvor” de YHWH. Depois disto, Lea cessou de dar à luz, ela trouxe ao mundo o essencial; é por esta razão que Israel existe: para dar testemunho e louvor ao Eterno, o Único, aquilo pelo qual tudo subsiste. Seu nome era sua missão; apesar deste corpo, deste rosto e desta ingrata herança, ele tinha como missão louvar “O Ser que é o que é” e destruir tudo que se opusesse a este justo louvor, a esta ortodoxia...
   Havia ainda um outro nome que lhe agradava e que também continha o Tetragrama sagrado: “Yeshoua” que significa: “Deus, YHWH, é o Salvador, o Libertador”. Tendo em vista suas aspirações de ver seu povo libertado, Judas achava que o Nome Yeshoua lhe teria caído melhor e teria sido de mais ajuda para auxiliá-lo a se “programar” como Messias ou colaborador do Messias de Israel.
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2. Em grego: orthos = justo; doxa = louvor.

   Judas ainda não se considerava um possível futuro messias para os judaicos, sua tribo, mas muitas vezes ele se sentia perturbado ao ler o Livro dos Profetas que narrava, em Isaías, a vinda de um messias, sem beleza e sem esplendor, que carregava consigo a rejeição do povo que ele viera salvar. Cada uma das palavras parecia ter sido especialmente escrita para ele:

E ele subirá como arbusto diante dele,
E como raiz que sai de uma terra sequiosa,
Ele não tem beleza, nem formosura,
E vimo-lo e não tinha aparência do que era,
E por isso não fizemos caso dele.
Ele era desprezado, e o último dos homens,
um homem de dores;
E experimentado nos sofrimentos, e o seu rosto estava encoberto;
Era desprezado, e por isso nenhum caso fizeram dele.
Verdadeiramente ele foi o que tomou sobre si as nossas fraquezas (e pecados).
E ele mesmo carregou com as nossas dores,
E nós o reputamos como um leproso,
E como um homem ferido por Deus e humilhado.
Mas foi ferido por causa das nossas iniqüidades,
Foi despedaçado por causa dos nossos crimes;
O castigo que nos devia trazer a paz caiu sobre ele,
E nós fomos sarados com as suas pisaduras. (Is 53:2-5).

   Se não era dele de quem falava o profeta, ele gostaria, ao menos, de ser próximo deste Messias.
   Foi junto aos zelotes, aqueles que têm “zelo” ou ardor por Deus e pela Torah, que ele encontrou uma confirmação para sua vocação. Eles também eram chamados de “sicários”, nome derivado deste pequeno punhal do qual eles nunca se separavam e que era um lembrete de que existe uma violência e uma guerra justas quando a honra de Deus, de sua terra e dos homens a quem ela é prometida é injuriada ou colocada em xeque.

   Ele se aproximou de um outro Judas, conhecido como Judas, o Galileu, filho do célebre Ezequias que se revoltara contra os romanos e contra o poder do Rei Herodes. Após a morte do seu pai, assassinado por Herodes, e após a morte deste último, Judas tinha retomado a tocha e tomara de assalto o arsenal de Seéforis com a ajuda de um grupo de partidários. Ele dispunha agora das armas do butim para conduzir sua própria luta armada...
   Quando o procurador romano Quirinius ordenou um recenseamento para que ninguém escapasse do imposto devido a César, os judeus de Jerusalém ficaram divididos: o grande sacerdote Joazar aconselhou que os fiéis se curvassem às exigências do invasor... Judas, apoiado pelo fariseu Sadoq, propôs ao povo que resistisse. Ele fez espalhar a crença de que era vergonhoso consentir em pagar um tributo aos romanos e, sobretudo, tolerar um outro senhor, ainda por cima mortal, além de Deus.
   Foi a partir deste momento que Judas, o Galileu, tornou-se chefe de um verdadeiro exército cada vez mais numeroso, que vivia refugiado nos planaltos, mas que possuía bases seguras em Jerusalém. Foi em uma dessas bases que ele encontrou pela primeira vez Judas que dali em diante passaria a ser chamado “Iscariotes” ou “o homem de Kheriot”, sua cidade natal. Mesmo nome, mesmo ideal: era preciso acabar o mais rápido possível com os Herodes e com o invasor romano, expulsar todos os demônios da terra santa através da fé e da força.
   Os zelotes eram apoiados pelo povo assoberbado pelos impostos, mas também pelos fariseus que, apesar de não aprovarem sua violência, compartilhavam do seu zelo pela rígida aplicação da Torah.
   Os zelotes consideravam os saduceus e os levitas, as grandes famílias sacerdotais que enriqueciam com a renda do templo e que colaboravam com o ímpio poder de Roma, inimigos de Deus e de seu povo. Os essênios, que tinham rompido com os grandes sacerdotes do templo, eram mais tolerados. Vivendo retirados no deserto, eles acreditavam que através da sua vida pura e de suas preces eles iriam apressar a manifestação do Mestre da Justiça que eles consideravam, se não como o Messias, como seu precursor.
   Para Judas, era evidente que o Messias anunciado pelos profetas seria também o “rei dos judeus” aguardado pelo povo e não proviria da linhagem de Herodes; sua descendência de origem idumaica era judia apenas “pela metade” e eles se conduziam como pagãos. (...)


Jean-Yves Leloup

Fonte: págs. 15-17, do livro “Judas e Jesus” duas faces de uma única revelação / Jean-Yves Leloup; tradução: Karin Andrea de Guise; Petrópolis, RJ : Vozes, 2007




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