Dupla dinâmica
Dupla dinâmica
Ricas em substâncias que combatem inchaços e fortalecem as paredes dos vasos sangüíneos, a castanha-da-índia e a centella asiática são grandes aliadas contra as varizes
FITOMEDICINA: SAÚDE DE RAIZ
Dupla dinâmica
FITOMEDICINA: SAÚDE DE RAIZ
Ricas em substâncias que combatem inchaços e fortalecem as paredes dos vasos sangüíneos, a castanha-da-índia e a centella asiática são grandes aliadas contra as varizes
Por Raquel Marçal,
Pra baixo todo santo ajuda. É fácil lembrar do espirituoso dito popular quando se pensa no trajeto do sangue em sua tarefa de irrigar os órgãos do corpo. A descida até os membros inferiores é moleza. Na hora de subir é que são elas. É justamente aí que entra em ação um sistema de válvulas localizado nas paredes internas das veias que ajuda o sangue a vencer a gravidade, empurrando-o para cima. Mas, às vezes, os tecidos dessas válvulas perdem a força e não conseguem mais fazer o seu trabalho. Resultado: o sangue passa a fluir com dificuldade e vai se acumulando na veia até a circulação no local empacar de vez.
Esse defeito nas válvulas – e a conseqüente travada do fluxo sangüíneo – é o que os médicos chamam de insuficiência venosa. Um problema á flor da pele. Inchadas por causa do fluido parado, as veias afetadas formam varizes e marcam as pernas num ziquezague que lembra uma fita sianinha. “A principal causa das varizes é a predisposição genética”, explica a angiologista Priscila Nahas, diretora do Departamento de Febloestética da Socidade Brasileira de Feblologia e Linfologia. Para quem não sabe, feblologia é o estudo das veias e das doenças venosas. A boa notícia para quem tem histórico na família é que algumas atitudes, como praticar atividades físicas, controlar o castanha-da-índia peso e evitar o cigarro, podem adiar [e quem sabe mesmo evitar] a ocorrência do problema.
As varizes não são um incômodo apenas estético. Doloridas, elas podem atrapalhar no dia a dia mesmo quando não há complicações – como tromboses superficiais, úlceras venosas e fleborragias, que são hemorragias originárias das veias.
Por isso, estão entre as causas mais freqüentes de afastamento do trabalho e são consideradas um problema de saúde pública. E não só no Brasil.
Nos casos mais graves só a cirurgia dá jeito. Mas quando o último recurso ainda não é indicado, dá para amenizar os sintomas com medicação. “Os medicamentos têm ação direta sobre a parede da veia doente, fortalecendo-a e melhorando o fluxo sangüíneo, explica Priscila. É exatamente isso o que fazem as duas plantas medicinais mais usadas no tratamento da insuficiência venosa: a castanha-da-índia (Aesculus hippocastanum) e a centella asiática (Centella asiática).
“A castanha da índia tem ação antiinflamatória e aumenta o tônus venoso, diz o médico Aderson Moreira da Rocha, presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.”
“Já a centella também possui efeito diurético. Na ayurveda é indicada para aliviar sintomas como inchaço, dor e cãibra nos membros inferiores.”
A dupla de fitoterápicos já provou seu valor em diversos estudos mundo afora. Os cientistas inclusive sabem quais as substâncias responsáveis pela ação benéfica dessas plantas. Trata-se das saponinas.
Na castanha-da-índia, a principal saponina é chama da de beta-aescina. “Ela favorece o transporte de íons para dentro dos capilares, o que aumenta a resistência das veias e artérias e impede a saída de líquidos dos vasos, evitando assim os inchaços”, explica a farmacêutica Elizabeth Lopez. “A castanha-da-índia possui ainda cumarinas e flavonóides, que também apresentam ação protetora vascular”, completa Elizabeth. Há evidência de que os fitoterápicos à base de castanha-da-índia são tão eficazes quanto a terapia de compressão dos membros inferiores com meias elásticas e os rutosídeos – substâncias tradicionalmente usadas nos medicamentos contra as varizes. A descoberta aparece citada numa revisão bibliográfica feita por pesquisadores do Laboratório de Farmacognosia do Departamento de Ciências Farmacêuticas da Universidade Federal de Santa Catarina. No mesmo relatório, eles afirmam que, no quesito segurança, o fitoterápico é bem tolerado, apesar de poderem ocorrer desconfortos gastrintestinais. Uma ressalva importante é que sementes, folhas, raiz e flores da planta jamais dever ser usadas, pois contém esculina – uma substância tóxica que não está presente nos fitoterápicos industrializados.
No caso da centella, as saponinas mais ativas são os triterpenos, que agem nos fibroblastos, as células produtoras de colágeno. Por isso, cremes e pomadas contendo o extrato são bastante usados na dermatologia.
“Estudos têm mostrado que o tratamento tópico com Centella asiática melhora o processo de cicatrização por promover a proliferação celular e aumentar a síntese de colágeno,” explica o farmacêutico e bioquímico Fredcerico Pitella Silva, que estudou a planta em seu mestrado na Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Na tentativa de entender a ação dos triterpenos a nível molecular, cientistas do prestigiado Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, chegaram a identificar os genes dos fibroblastos afetados pela centella. E concluíram: os triterpenos induzem essas células a produzir mais colágeno. E mais colágeno significa pele e tecidos mais fortes, incluindo as paredes de vasos e artérias.
Outro estudo, este feito na Universidade D’Annunzio, na Itália, sugere que a centella atua em mais uma frente. Ela regulariza a permeabilidade capilar, isto é, a capacidade das paredes do endotélio dos vasos de deixar passar para dentro água e moléculas solúveis em água. Assim, a centella evita o acúmulo de líquidos, ação que faz da planta uma aliada contra os inchaços (edemas) nas pernas e a celulite.
Que essas duas plantas são mesmo poderosas, ninguém duvida. Mas aqui vai uma observação importante: as duas espécies são contraindicadas para mulheres grávidas, que sofrem com inchaços nas pernas e pés. Para elas, o que os médicos mais recomendam são as meias elásticas, que comprimem a pele e ajudam o sangue no seu trajeto para cima.
SERÃO VARIZES?
Não se desespere se notar na pele um grupo de vazinhos formando uma espécie de teia de aranha. Eles não são varizes em estado inicial. Apesar de serem estruturas vasculares que conduzem sangue venoso, como as varizes, os vasinhos têm calibre diferente – são fininhos – e estão dentro da espessura da pele. Mesmo que não sejam tratados, eles podem no máximo se espalhar, mas não vão se transformar em varizes.
PODEROSA CENTELLA
Em 2005, pesquisadores da Oregon Health & Science University, dos Estados Unidos, comprovaram em camundongos que o extrato de centella asiática é capaz de reverter danos causados nos nervos pelo diabetes. Agora, outro grupo da mesma universidade investiga se o efeito se repete em humanos. Desde o ano passado, eles acompanham um grupo de 60 pacientes com reuropatia diabética, um conjunto de sintomas que inclui dor, dormência e fraqueza nos nervos. O grupo está sendo tratado com uma froga contendo os triterpenos da centella.
A neuropatia diabética ocorre porque o alto nível de glicose no sangue prejudica a circulação, deixando as células nervosas sem nutrientes importantes. O problema afeta principalmente braços e pernas – extremidades do corpo onde o sangue tem mais dificuldade para chegar. É considerada uma das mais debilitantes complicações da doença e a mais difícil de ser tratada. “Hoje é possível tratar esses sintomas, mas não promover a recuperação dos nervos debilitados”, afirma Jaú-Shin Lou, neurologista e coordenador do estudo. “A única forma de controlar a neuropatia diabética é manter a taxa de açúcar sob controle. Caso essa droga [com o extrato de centella] seja eficaz, teremos uma outra alternativa.”
A equipe também vai investigar se os triterpenos agem penetrando no sistema nervoso. Em caso afirmativo, no futuro, a centella poderá ser usada no tratamento de várias outras doenças causadas pela degeneração neural, como o Mal de Alzheimer.
Fonte:
Revista Herbarium, págs. 10 a 13, ano II, setembro 2011, número 04


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