sábado, 15 de outubro de 2011


Vacinações: Mito ou Necessidade

HOMEOPATIA

A dúvida se insinua

Dr. François Choffat
Clínico geral, ensina homeopatia na Suíça.
Em 1992, participou da criação da Escola Suíça Romanda de Homeopatia Unicista


As vacinações modificam as reações do indivíduo diante das agressões potenciais. Segundo o jargão dos homeopatas, são “medicamentos básicos”. Os discípuloos de Hahnemann deveriam, pois, a exemplo de seu mestre e de todos os seus colegas contemporâneos, aceitar sem restrições o princípio das vacinações. Ora, não é isso que acontece; muitos deles rejeitam em bloco todas as vacinas, outros só vacinam com parcimônia e em certas condições. Por quê?

Durante anos, eu próprio vacinei com entusiasmo, convicto de participar de uma grande obra médica com relação à humanidade. Dirigi em Marrocos campanhas de vacinação em massa contra a varíola, a tuberculose, a difteria, o tétano, a pólio, e por vezes afastei com um gesto negligente as poucas perguntas formuladas por raros pais céticos. Ora, ao descobrir a homeopatia, descobri também certos inconvenientes das vacinações desconhecidos do corpo médico. Desde então, reduzi pouco a pouco as indicações e o número de vacinações nas crianças que me são confiadas; recuso mesmo praticar algumas imunizações. Como cheguei a isso? E como a oposição minoritária dos homeopatas pode justificar-se diante do consenso do corpo médico? Essa pergunta me persegue, sendo uma das fontes da reflexão que me levou a escrever este livro (“Homeopatia e Medicina” Um Novo Debate) .

Por natureza, duvido de tudo e, em primeiro lugar, de minhas próprias interpretações dos fatos observados, mas estou pronto a duvidar também daquilo que me é ensinado quando não chego a compreende-lo ou a verificá-lo. Preciso ser convencido para agir. O que digo aqui das vacinações é fruto de minhas constatações, de diálogos com meus colegas homeopatas ou clássicos e de numerosas leituras. Mas, como veremos, não há muitas fontes de informações imparciais, e duvido ainda do que creio saber, estando pronto a me deixar convencer por outros argumentos favoráveis ou opostos à vacinação. O que vem a seguir não passa de um ponto de vista provisório e pessoal, e as conclusões que hoje tiro desse ponto de vista são antes de tudo compromissos que me permitem adotar uma atitude pragmática diante de meus pacientes, de suas perguntas e das obrigações legais. Não desejo impor um ponto de vista, mas partilhar minhas dúvidas.

Uma inocuidade suspeita

Como a dúvida se instalou em mim? Meu primeiro professor de homeopatia, Dr. Dominique Senn, ensinou-me a decifrar os traços às vezes deixados no ser humano por um agente infeccioso, tanto doença como vacinação. As mudanças podem ser positivas ou nefastas, mas temos menos experiência no que tange às primeiras do que ás últimas, já que não são feitas consultas para averiguar melhorias do estado de saúde! Aprendi que os efeitos secundários eram relativamente específicos e que podiam sobreviver tardiamente, meses ou até anos depois da contaminação vacinal. Os primeiros exemplos de que me lembro são os dos bebês que se constipavam pouco depois do nascimento ou que apresentavam infecções urinárias ou otites que precisavam de vários tratamentos com antibióticos já no primeiro ano, ou ainda de crianças em idade escolar que procuravam ajuda por se verem subitamente esgotadas e privadas de todo rendimento escolar. Todos tinham em comum o fato de terem sido submetido a uma inoculação pela BCG, para se protegerem da tuberculose, efetuada nos menores desde o nascimento e nos maiores um a três meses antes da consulta. Objetar-se-á que um problema de saúde subseqüente a uma vacinação não prova em absoluto a existência de um laço causal entre os dois fenômenos e que muitas crianças se constipam ou se mostram cansadas sem ter sido vacinadas, bem como que a maioria das que se vacinam não apresentam esses sintomas. Eu tampouco afirmo que a BCG seja a única causa dos problemas apresentados; digo que ela pode ser uma causa que favorece ou desencadeia esses problemas nas crianças predispostas.

Dois argumentos sustentam essa hipótese. Em primeiro lugar, o tipo de patologia predominante depois dessa vacina: infecções redicivantes das vias respiratórias, infecções do aparelho urinário, diarréias crônicas, inapetência, emagrecimento, transpiração, fadiga e até astenia e depressão. Vários sintomas que evocam os encontrados nos tuberculosos e que para nós representam antes um modo de reatividade patológica do que a confirmação da presença de um germe nos órgãos afetados. O segundo argumento – para nós, homeopatas, o mais convincente – é a eficácia de um tratamento que consideramos específico. Os sintomas desaparecem com a aplicação por via oral da vacina em questão, diluída e dinamizada à maneira de um medicamento homeopático. O agravamento temporário que por vezes sobrevém antes da cura é para nós confirmação suplementar da nossa hipótese1 e da vulnerabilidade do sujeito à BCG. Também aprendi a reconhecer os quadros clínicos dos efeitos secundários de outras vacinas.

A vacina goza de um estatuto de exceção

A vacina não é nem um medicamento nem o instrumento de um tratamento. Sua prescrição não é consecutiva ao estabelecimento de um diagnóstico nem a uma avaliação dos benefícios e dos efeitos secundários que o paciente pode esperar dela. Quando vacinamos uma criança, asseguramo-nos apenas de que ela se encontra em boa saúde, não temos nenhuma certeza de que ela desenvolverá a doença contra a qual a vacinamos ou de que não apresentará uma complicação devida à imunização. Assumimos, portanto, o risco de fazer uma criança sadia adoecer em função de uma escolha de política de saúde pública fundada em considerações estatísticas. Mesmo quando a vacinação se insere no quadro de uma consulta individual, não se trata menos de uma renúncia a uma medicina liberal e personalizada. E, quando esse ato é fruto de uma obrigação legal ou de uma pressão moral, o médico torna-se o instrumento de uma ação totalitária no sentido etimológico do termo.

A vacina aproxima-se, por conseguinte, da homeopatia por estar em conformidade com a lei da semelhança e por agir sobre a “estrutura” do paciente, mas difere dela em virtude do seu contexto incompatível com o princípio da individualidade. Existe, além disso, uma perigosa particularidade de a vacina ser irreversível em algumas de suas complicações. Se determinado remédio não é tolerado por um paciente, nada impede este último de suspender a sua ingestão ou até de neutralizar os seus efeitos através de outro medicamento. Já no que diz respeito às complicações das vacinas, é tudo ou nada.

As vacinas parecem também escapar a toda discussão objetiva e ao questionamento permanente característico de todo procedimento científico. Pôr em dúvida o valor de uma única vacina, ou enfatizar seus inconvenientes, é desencadear paixões no corpo médico, que considera toda crítica uma censura criminosa ao próprio princípio das vacinações. Esse princípio, implicitamente tido por intocável, quase sagrado, é de fato um verdadeiro tabu. Uma atitude ponderada é vista como inconveniente; a pessoa é colocada automaticamente entre os partidários ou os adversários das vacinações, sendo obrigada a escolher um campo. A literatura disponível sobre as vacinas reflete essa dicotomia. Enquanto há uma superabundante literatura oficial, muitas vezes ditirâmbica, não se encontram senão alguns poucos documentos críticos publicados benevolamente por associações de pais de “vítimas das vacinações” – por exemplo, na Franca, La Ligue Nationale pour la Liberte des Vaccinations [sede social: 4, rue Saulnier, 75009 Paris]. As informações fornecidas por essa associação costumam ser de excelente qualidade, relatando fatos perturbadores, trabalhos desconhecidos, estatísticas que permaneceram confidenciais e dossiês inéditos. Essas informações contrariam as nossas certezas mais estabelecidas.

Pessoalmente, eu nunca teria me interessado por essa literatura dissidente se não tivesse observa\do em meus próprios pacientes alguns efeitos secundários não reconhecidos pelas publicações oficiais. As passionais reações do corpo médico suscitadas pela crítica às vacinas representam um fenômeno particularmente surpreendente num meio que diz guiar-se pelo espírito científico. A indignação de alguns colegas diante de minhas dúvidas obrigou-me ao silêncio, embora alimentando em mim o desejo de compreender as suas reações. (...)




(fonte: págs. 119 a 123, do livro “Homeopatia e Medicina” Um Novo Debate, François Choffat,  Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 1996).



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