ARRASTANDO-SE PARA MORRER
T S Wiley,
Antropóloga e teórica médica, com passagem pelo jornalismo investigativo. Trabalha atualmente em pesquisa médica, com especial interesse nas áreas de endocrinologia e biologia evolutiva
O que acontece ao maior relógio de seu corpo quando a luz nunca se acaba ao pôr-do-sol? Quando o combustível que alimenta seu coração nunca varia e o pânico percebido em sua mente nunca tem fim? Tantas coisas que você nem pode imaginar.
E nenhuma delas é boa.
Suas artérias realmente “sentem” o sangue correr através delas. Os sensores que lêem a força com que seu sangue puxa e empurra, ao correr através de seu corpo, são chamados células endoteliais. Essas células vivem à própria maneira. Elas mudam de forma, movimentam-se e ativam/desativam uma miríade de genes, em resposta à pressão sangue e à velocidade, aos hormônios e citocinas que detectam no sangue e aos fótons trazidos ao sangue pelas células chamadas criptocromos. (As células endoteliais controlam sozinhas a dinâmica de fluidos do fluxo sangüíneo; ou seja, elas distribuem as forças para evitar extremos perigosos.)
As células endoteliais também controlam a metabolização dos ácidos graxos que flutuam em seu sangue. Os ácidos graxos são aquilo que o médico mede quando o ameaça por causa de seu colesterol alto. Os exames de sangue que ele pede para avaliar seu colesterol analisam diferentes componentes cujas siglas são VLDL, HDL e LDL. Se as LDLs (lipoproteínas de baixa densidade) são divisões das VLDLs (lipoproteínas de baixíssima densidade) que foram fabricadas em seu fígado, a partir dos carboidratos que você comeu e se transformaram em partículas LDL – menores, pesadas e oxidadas –, tudo isso vai depender exclusivamente de suas células endoteliais.
O médico lhe diz para não comer antes do exame. Isso é necessário não porque uma refeição rica em gorduras vai mascarar os resultados; uma refeição rica em carboidratos é o que o faz. Os carboidratos se transformam em triglicérideos (gordura corporal), para insulá-lo e nutri-lo quando não houver mais açúcar disponível para comer. Os carboidratos também se transformam, simultaneamente, nesses ácidos graxos (colesterol), para proteger suas células cardíacas contra vazamentos, caso você congele, e para nutrir as células musculares de seu coração.
Seu coração possui um metabolismo sazonal da mesma forma que seu cérebro. O coração do verão funciona com açúcar puro (glicose) e o coração do inverno funciona com ácidos graxos livres. Como é sempre verão em nossos corações, nossas artérias nunca têm chance de usar todo o colesterol disponível. Além disso, a serotonina continua a se acumular, o que provoca resistência à serotonina, que por sua vez provoca pressão alta, no caminho para a formação de coágulos e – enquanto as luzes estiverem brilhando – cortisol permanentemente elevado. E você sabe muito bem o que significa qualquer coisa em estado crônico.
A resistência ao cortisol é uma situação desastrosa.
A produção de cortisol é um mecanismo sempre à disposição de suportar situações, de lidar com o estresse episódico. A cobertura de seu coração adora cortisol, em pequenas doses. As células endoteliais da cobertura de seu coração não podem realizar todas as suas tarefas sem doses pequenas e administráveis de cortisol. Doses grandes, no entanto, são sinal de grande perigo para suas células endoteliais. Doses grandes o dia inteiro, a semana inteira e o ano inteiro, durante décadas, significam resistência ao cortisol na certa.
Além de mau humor, impaciência, percepção mascarada do tempo e pânico generalizado.
Não importa se a gordura que você ingere é saturada ou não-saturada, se é boa ou ruim; se as células endoteliais da cobertura de seu coração estiverem mortas, você também está. A cobertura de cada vaso sangüíneo de seu corpo é fundamental no esquema maior do órgão sensorial conhecido como coração.
A corrida de seu sangue, o puxa-empurra, é um esforço sobre as paredes de suas artérias. O esforço sobre uma almofada macia de cobertura formada por células endoteliais ativa três genes muito importantes: um que produz óxido nítrico, que controla o estreitamento de seus vasos sangüíneos, que por sua vez controla a velocidade e o volume de sua pressão arterial, e dois genes que inibem a formação de coágulos e suavizam qualquer formação muscular anormal (formações grumosas). Células endoteliais que captam turbulência demais ou, no extremo oposto, nenhuma turbulência, ativam muito pouco esses genes. E isso é mau.
Isso significa que, embora correr o tempo todo numa esteira produza excesso de turbulência, ficar o tempo todo colado à televisão ou à tela do computador é ruim do mesmo jeito. Um pouco de estresse, episodicamente, é bom – da mesma forma que um pouco de cortisol, episodicamente, mantém o ritmo e prova que você está vivo.
Excesso de estresse crônico, é claro, para a natureza significa que você é um perdedor e deve ser eliminado de forma permanente. Um pequeno banho de cortisol, porém, faz as células endoteliais muito felizes; já o excesso vai afogá-las. Como seu cortisol fica alto enquanto as luzes estiverem acesas, você provavelmente está se afogando. Por isso, só o fato de manter as luzes acesas até tarde da noite o ano todo já causa a morte das células endoteliais. Qualquer elevação na pressão arterial, a partir de seu sistema nervoso simpático ou em função da pesada ingestão de carboidratos na estação errada, vai alterar a pressão e, com isso, criar ainda mais esforço, para matar suas células endoteliais duplamente. Lembre-se de que os cinco quilos de peso de água que você carrega enquanto está numa dieta rica em carboidratos já é um aumento de volume suficiente para responder pela pressão alta subclínica crônica, observada na maioria dos homens acima de 35 anos de idade.
Qualquer pressão alta, não importa o quão leve seja, sempre significa esforço.
O outro assassino importante das células endoteliais da cobertura do seu coração é o nível cronicamente alto de endotoxina LPS. Lembre-se de que a endotoxina LPS é o “suor” bacteriano proveniente dos dois quilos de bactérias simbióticas que vivem em suas entranhas, e que, à medida que se eleva, ativa seu sistema imunológico e a interleucina-2, que faz você dormir e baixa novamente o número de bactérias. Quando você luta contra o sono, porém, esse número se eleva e permanece alto.
Isso mata o seu coração.
A maneira mais obscura de matar suas células endoteliais por não dormir é através da homocisteína elevada. Um homem chamado Kilmer McCully percebeu, há cerca de trinta anos, que crianças portadoras de uma doença genética chamada homocisteinúria sempre morriam de ataques cardíacos por entupimento das artérias por volta da idade de dez ou onze anos. As crianças portadores de homocisteinúria são incapazes, geneticamente, de fabricar uma enzima que metaboliza a homocisteína, para removê-la da corrente sangüínea. McCully foi esperto o suficiente para concluir que os altos níveis de homocisteína acumulada deviam estar também associados à doença coronariana arterial em adultos. E ele estava certo.
É claro que ninguém o levou a sério, até que os cientistas descobriram que um aumento de suplementos de ácido fólico compensava a falta da enzima nos caminhos de eliminação da homocisteína. E, como surgiu um tratamento, de repente apareceu também uma doença: deficiência genética de ácido fólico. Minha nossa!
Uma deficiência genética de ácido fólico generalizada na maior parte da população masculina que chega à idade madura é algo virtualmente impossível; então, sabendo que ninguém havia montado o quebra-cabeça, nós investigamos o caminho da fabricação e da metabolização da homocisteína. Sem dúvida nenhuma, a apenas alguns sistemas circulares de resposta e cascatas atrás, uma enzima que é crucial para metabolizar a metionina – a precursora da homocisteína – é abatida por um criptocromo carregado de luz azul. A quantidade de luz do dia a que você é exposto, agravada pela quantidade de luz artificial, controla a produção de uma coisa diminuta, aparentemente esotérica, lá em cima na cascata dos outros hormônios e funções, que pode matar você.
Então.
As células endoteliais – que forram o seu coração – controlam a formação de coágulos, o crescimento excessivo, o metabolismo de gorduras e a pressão arterial. Você pode matar suas células endoteliais de quatro maneiras:
1. Cortisol elevado crônico (luz inesgotável)
2. Altos níveis de endotoxina LPS (não dormir)
3. Homocisteína alta (luz em excesso)
4. Esforço (pressão arterial elevada sazonal – junto com “peso de água” dos carboidratos, além de resistência à serotonina e à insulina – que nunca acaba)
Como os itens 1, 2 e 3 são o resultado da vida moderna e o 4 – a dieta de açúcar o tempo todo – é conseqüência direta de 1, 2 e 3, podemos dizer, com segurança, que a doença cardíaca, que é um estado caracterizado por células endoteliais mortas, é causada por não dormir e por excesso de luz, certo?
SEM SAÍDA
A cobertura endotelial também controla o crescimento excessivo de tecido muscular macio (protuberâncias grumosas), que, ao lado do colesterol que forma placas, é o fator mais importante da arteriosclerose (artérias entupidas). Um fluxo sangüíneo difícil, em terreno acidentado, ativa um conjunto de genes totalmente diferentes nas células endoteliais. Esses outros genes são postos em marcha para “corrigir” aquilo que as células endoteliais interpretam como sendo um problema de “fluxo”, simulando pelas protuberâncias grumosas.
As placas de colesterol, por si mesmas, não são responsáveis pelo terreno acientado.
O problema é causado pelos “fatores” imunes liberados pelas próprias células endoteliais, numa tentativa protetora de restaurar a homeostase e distribuir o fluxo sangüíneo. Um fluxo anormal, na verdade, desliga os genes protetores e causa pânico entre as células endoteliais. Após liberarem os fatores imunes que se fecham, elevando sua pressão arterial por engano, elas começam a se agachar em torno, estendendo pseudopodos (pezinhos), para escapar de áreas onde o espaço mudou abruptamente.
A migração dessas células que forram suas artérias leva ao afinamento da parede arterial. Os claros são preenchidos por células imunes, chamadas leucócitos, que formam uma casca suficientemente grudenta para atrair o colesterol que flutua na corrente sangüínea. Este faz um band-aid de gordura para reforçar a parede arterial que afinou. A essa altura, você tem placas de colesterol, crescimento excessivo de tecido muscular macio e células imunes, produzindo o que se conhece por células de espuma.
As células de espuma constituem uma “lesão”.
Essa nova bagunça forma um terreno excessivamente “acidentado” e um fluxo extremamente dificultado, o que enlouquece ainda mais as suas pobres células endoteliais. Elas fogem e a parede da artéria afina; e quando seu sistema imunológico tenta consertá-la, ela vai ficando cada vez mais acidentada – e aí, claro, as células endoteliais mais uma vez escapam, e toda a confusão começa de novo. E de novo e de novo.
Você só percebe esse quadro porque não morreu ainda.
Provavelmente você já teve uma forte dor no peito ao se exercitar. E sem dúvida também está achando cada vez mais difícil combater a depressão causada por todos os carboidratos que ingeriu e pela serotonina anormalmente alta que se acumula, porque não tem para onde ir. Sim, porque quando você nunca apaga as luzes, a serotonina não tem como se transformar em melatonina. Na verdade, a luz suprime a enzima que converteria a serotonina em melatonina. Além de fazer você ficar triste, esses níveis absurdos de serotonina criam resistência à serotonina nas plaquetas do sangue, o que as torna mais grudentas que o usual. Isso é importante, porque é difícil ter um ataque cardíaco sem um coágulo sangüíneo, e é difícil ter um coágulo sangüíneo sem plaquetas grudentas.
Você está cansado, ansioso, infeliz, miserável, viciado em açúcar ou em álcool, talvez dependente de Prozac – e anda por aí com a cobertura do coração morta, mantida de pé à custa de estacas de colesterol.
Você tem uma doença cardíaca.
E provavelmente vai morrer... logo.
(Fonte: trecho do livro “Apague a Luz!”, páginas 149 a 154).
“Apague a luz!” Durma melhor e: perca peso, diminua a pressão arterial e reduza o estresse, Bent Formby e T. S. Wiley, 384 páginas, Rio de Janeiro, Editora Campus, 2000.
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